domingo, 5 de outubro de 2008

Foi-se


Tua plumagem prateada,
A ambiguidade de teus raios
Que me tocam a pele receosos;
O prazer que lhe retiro das palavras
Sussurradas em segredo a mim só;
A ingenuidade deste teu sorriso cândido...
Mas é teu pulsar, teu correr por minhas veias
Que me respiro inteira, vendo-me assim,
A amar-te viciosamente, sorrindo-me receosa
Em olhos lastimosos: Mata-me, aos pouquinhos, mas mata-me!"

Apenas


Os modos fúteis com os quais teus olhos vêem o mundo,
Aquela mínima beleza que se faz perceber timidamente,
Aproxima-se de ti assim, carnalmente,
E ainda atreve-se de tirar-lhe suspiros!
Eu cá, com meus doces brios, chego a sentir-me ciumenta,
E minhas pupilas ardentes em vinho lhe tocam cobiçosas.
"Vês se te sorris assim" digo-lhe eu em meu sorriso doloso
"Quanto tiver em teus, os meus lábios chistosos.".

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

"E pensar que poderia achar prazer em teus abraços, carinho em teus beijos, segurança em teus sussuros; o maximo que cheguei a achar foram as desasgraças dum coração tão já ferido, que a outro fere!"
"Aqui estou eu, aqui estarei, para teus suspiros, para teus olhos, teu conforto, e estranhamente para tua morte."

Cartas

Oh, minha amiga! Não sabes o conforto que encontro em escrever-te! Temo não mais ama-lo! Não te rias de mim Helena, pois sei que eras bem contra o nosso amor, mas sinto-me triste, doce amiga, sinto-me mergulhar na antigaa depressão de meus pensamentos, socorra-me!
Sento-me ao seu lado, mas não já não sinto o prazer que antes sentia ao faze-lo, ele segura a minha mão, e eu já não tremo! Que será? caí na monotonia do amor que os velhos sempre nos avisam, ou perco o encontro de nossos corações?
Mas em todo não o temo, antes sem ele tinha meus sonhos, quando ele conquistou-me meu sonho passou a ser apenas ele, sinto saudades de minhas aspirações.
Estou decidida Helena, abrirei mão de nosso amor, para que tenha outra vez, o sonho do qual noites de sono me roubou! Abro mão de nosso amor, já morto, para ter outro bem mais novo!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Por mais das vezes que te explique, e tu me explique á tua propria maneira, continuaremos no mesmo impasse, se preferes a destruição, eu busco á vida.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

E das Horas fez-se a Rosa. (Segunda Carta)

E lhe respondo finalmente meu amigo, por muito esperei tua carta, cheguei a pensar que não mo responderia, fiquei realmente triste com tal idéia, e agora que lhe posso ler as palavras. Deixa-me realmente contente.
Em resposta a tua pergunta: Sim, realmente adoro esse “Fim do mundo” para usar tuas próprias palavras. Faz-me sorrir cada pedrinha com que topo em meu caminho. Sinto-me fantástica, não vos minto, não meu amigo, por outro lado, vos sou demasiadamente sincera.
Me falas de tua atual amante, ora, se te queres meter com tais mulheres estás por si mesmo. De muito venho a avisar-te sobre essa dama pela qual andas enamorado, é de certo nada sincera, a maioria o é, mas quem sou eu para dizer-te tais coisas, nunca escutastes meus conselhos sobre teu coração, e sempre que tens por sofrer vem queixar-se a mim. E te recebo de braços abertos, e lhe digo hei de receber-te sempre, não só por ter-lhe como grande amigo, mas pelo pequenino prazer de poder dizer-lhe: Avisei-lhe não avisei?
Mas deixemos teus desencantos com damas para mais tarde, fala-me, como vão os negócios em tua fazenda? Espero que tudo vá demasiadamente bem.
Me perguntastes do povo desse vilarejo. Pois lhe digo que nunca encontrei pessoas mais simplórias, são um amor em muitos modos. Me receberam demasiadamente bem, e tenho tantas casas a ir, e jantares, que certamente não sei como recusar a um e outro convite.
As crianças são as que mais me encantam, curiosas feito ratinhos brancos, me enchem de perguntas, e me sinto obrigada a responder-lhes tudo. De todas prefiro Anita, uma menininha de seis anos, muito esperta, senta-se sempre ao meu lado e traz-me um livro para que o leia para ela, quando tenho por visitar a casa de sua mãe.
Bem si que agora estás por perguntar-se sobre minha paixão, deixei-a de lado, pelo menos por esse pouco tempo em que conheço a vila. Peço para que me perdoe, deves me chamar de preguiçosa, pois sim! Eu o sou! Mas que vergonha de mim mesma...
Ora meu bom amigo, entenda-me, lhe peço para que me entenda.
Prometo-lhe que tentarei chegar perto de meu instrumento assim que sentir-me abita a isso. Ate lá, contentar-me-ei com os livros que agora tenho tempo para ler.

Um grande abraço de tua adorada e sempre amiga.

domingo, 18 de novembro de 2007

Rascunhos

Estava sentada no sofá com a mente um pouco distante quando ele se dirigiu a mim, ele disse:
-Quando pretende ir embora?
Juro que quis rir, ele não era muito de indiretas, na verdade era sempre direto, não se importava com porra de sentimentos de ninguém, e certamente não dava a mínima para mim e meu orgulho ferido.
Fiquei o encarando um pouco, fingindo que não o ouvira direito e estava colocando os sons em seus respectivos lugares de modo a formar a frase que dissera.
Na verdade queria que ele repetisse, ele ficava puto, quando era forçado a repetir algo que acabara de dizer.
E ele repetiu. Então fui forçada a responder.
-Não sei... Por quê? Vai sair com uma de suas putinhas?
E falei ponderando as palavras, prolongando as pausas.
-Já lhe disse que não lhe quero com esse tipo de linguagem em minha casa, quantos anos você tem? Quinze? ... Afinal de contas, por onde anda sua mãe?
O encarei.
-Tem um cigarro?
Ele me deu um desses olhares reprovadores que os adultos fazem tão bem.
Fui obrigada a sair, certamente não queria falar de minha mãe e o puto de seu namoradinho, e obviamente não estava com humor para ouvir um sermão dum velho tarado.
Quer dizer, tarado ele não era. Era até legal, tentava sempre me corrigir, eu o achava hilário.
Sai do apartamento e fui seguindo o corredor até o elevador.
Meio dando pulinhos como uma menininha de dez anos.
-Hey! Hey!
Era alguém que me chamava, parei de dar pulinhos e segui andando normalmente, meia constrangida, era o loco do meu vizinho, um maluco que só se veste de preto e usa pircings pela cara toda, juro que quase não dá para ver a pele, de tão cheio de metal que ele é.
Ele continuou gritando, mas segui direto e desci as escadas, ele podia me alcançar no elevador e eu certamente não queria topar com o maluco do ferro.

-Tem um cigarro?
-O que? Você não fuma.
-Mas acho uma frase legal, que me diz? Olha, tenta: Tem um cigarro, ou me dá um cigarro, ou sei lá o que... Que me diz?
-Que você é completamente louca. Olha, o tal do Zé louco tava atrás de ti, que quer ele contigo?
Esse era o menino da praça, só conheço ele dali mesmo, mas ele sabe meus segredos mais obscuros. Tem esse jeito de falar, vez ou outra, como se fosse um velho. Imitando um personagem de terno e cartola dum romance.
-Tá com ciúmes?
E ouvi ele sussurrar:
-Me dá um cigarro.

sábado, 17 de novembro de 2007

E das horas fez-se a rosa. (Primeira Carta)

Escrevo a ti, finalmente, de minha atual moradia. E lhe confesso, meu doce amigo, que é certamente uma maravilha. Pequenina e aconchegante, do modo o qual sempre busquei, sei que não a aprovarias, e me dirias (posso imaginá-lo claramente a fazê-lo e me faz rir sozinha) “Quão tolo procurar algo o qual só procuram aqueles que não podem ter mais, podendo tu ter o que bem sonhares.” Sempre cheio de suas excessivas palavras. E já sinto tua falta.
Cheguei ontem a esse belo lugar de nosso Brasil, quase que não tocado pelo homem, e só não lhe escrevi ontem mesmo pois não encontrei forças depois de examinar a casa tão meticulosamente, e de informar aos criados os quartos exatos para serem postas as bagagens.
E são em momentos como esse que sinto por não ser homem! Bem sabes o modo como me olham os criados, as mulheres não muito, mas os homens me olham como que a duvidar de minhas palavras e decisões. E sinto-me certamente feminina, e tão frágil quanto uma flor quando tem esses olhares a tocarem os meus.
O sul é levemente mais fresco, mais doce, e busco mais palavras para descrevê-lo a ti, sei o quanto gosta de minhas palavras tão má escolhidas (nem sabes o quanto sinto a falta de tuas afirmações!).
Por ora lhe descreverei, esta casinha simples na qual viverei alguns tempos negros de minha profissão. Assim que encontrei com sua fachada apaixonei-me, o meticuloso portãozinho que a protege da entrada de estranhos é simplesmente um amor. Em seguida meus olhos decaíram-se sobre as plantas tão crescidas que já enchiam o jardinzinho de boneca, como decidi chamá-lo por sua pequenez, (tudo aqui parece ter sido feito para uma criança, e me deixa bastante deliciada.) não existem arvores ali (olho diretamente para ele) mas sim ervas-daninhas e algumas flores as quais não conheço, mas disse-me a criada que foram plantadas pelo antigo dono.
De resto é como qualquer outra pequenina casa, poucos quartos, (em baixo encontram-se apenas a sala de visitas e a cozinha, que tem sua entrada escondida pela escada.) na parte superior estão o meu quarto e o da criada, mais um pequeno closet que cuidei para que ali construíssem uma estante na qual organizarei meus livros.
Decidi que não farei reformas nessa adorável casa, quero-a ao modo do seu criador, e deves rir, sei que bem reconheces que certamente gosto da identidade daqueles mais antigos, que gosto das coisas já usadas pelo seu ar romântico e sobrenatural.
Mas certamente terei de mexer no jardinzinho de boneca, aparar as roseiras, ou a casa parecerá abandonada, e é algo que não quero.
Já é noite, e vi que gastei mais de hora tentando escrever-lhe essa carta. Quero que seja por demasiado bem recebida por ti, meu grande amigo. Amanha me porei a trabalhar no jardim. Peço-lhe para que não me pergunte sobre meu coração, minha profissão haverá de esperar pelo jardinzinho de boneca, minha musica que foge de mim como as crianças de um quarto escuro, e o que não sou eu além dum quarto escuro?
Mando-lhe um logo abraço, e um gracioso, mas simples beijos nestes teus lábios que nunca cheguei a tocar.
Responda-me o quanto antes, sabes que não aprecio a solidão.

De sua querida Cecília, com devotado amor.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Uma poesia qualquer.

O que seria de mim,
Se de teus olhos não tirasse o pranto preciso,
E de teus lábios beijos fascinantes de paixão
De teus olhos a devoção que tanto desejo,
De teu corpo o calor tão meu amigo?

Continuaria o que sou se não te fizesse sofrer,
Blasfemar sobre meu nome tão nobre,
Arruinar nosso amor sagrado,
Jurar afeição maior a outra,
Dizer já não mais amar-me, sabendo que ama?

Ainda sorriria se não presenciasse sua queda,
Se não assistisse a sua chacina interior,
Sua autodestruição, tão lenta, e fabulosa.
Se não ouvisse seus gritos da calçada,
Numa daquelas noites em que antes te abraçava,
Sussurrando em teu ouvido a mentira dum amor
Eterno.

Não seria a mesma, bem sei, se não te fizesse
Relembrar sempre que nos vemos novamente
O modo com que amava esses olhos traiçoeiros.
As horas sagradas em que tua voz masculina
Enchia o ar da melodia certa para sua veneração
A este corpo tão doce de tão desalmado.

E depois de tanta angustia, te aconchego á
Meu seio obscuro uma vez mais,
Para que se embebede no vinho de meus olhos,
Para que os fite com a devoção passada.
E para que me diga sem rodeios: A ti sempre o foi.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

sábado, 15 de setembro de 2007

Diálogo entre semelhantes.


A impaciência me sufoca, são as pessoas que vivem a meu lado que me deixam aturdida não me dão espaço para respirar, sinto-me perecer. Salve-me!
Sei o quanto um ser - humano pode agüentar em contato a um mundo negro com o qual eu vivo, apesar de não ser tão negro, é cinza, caminha para a escuridão, perco minha luz, Deus! Sinto-me tão só!
Mesmo assim, cercada daquele calor que suas almas passam, rodeada dele, de suas auras entristecidas ou sorridentes, mesmo assim cercada me encontro só.
Uma sede louca de religião me toma o seio a todo dia, namoro as fachadas das igrejas pelas quais passo, mas não tenho coragem de penetrar porta a dentro de um santuário o qual nós fizemos tornar-se enganoso. É o meu pecado!
Então lhe chamo a sentar-se comigo e me queixo a você sobre esse mundo que me enche a cabeça de totais asneiras. E clamo – apesar de num sussurro – Salve-me!
Minha voz torna-se tenebrosa com o tempo, talvez seja natural.
E instável... Talvez isso que não seja natural.
Veja... Eu não culpo ninguém, nem sequer Ele, como fazem os mais fracos, e confesso, sou uma fraca.
Fraca como...
Desculpe-me, não possuo uma comparação.
É bom ver que almenos você ainda pode sorrir.
Claro que sempre vejo sorrisos, não estamos em guerra.
Não me faça perguntas bobas!
Não suporto seu sarcasmo! Sou fraca, mas não sou boba!
Dê-me um gole dessa água... Claro que não me importo! Não lhe tenho nojo, por outro lado! Não se finja...
Tudo bem... Eu me calo...
Falo por demasiado, eu reconheço. Como vê uma das poucas boas características presentes em meu caráter é a sinceridade.
Chegue mais perto, vou contar-lhe um segredo, deixe que sussurre: eu simplesmente amo morangos...
Surpresa? Não deveria...
... Strawberry fields...
...
É-me difícil não conter as lágrimas, inda mais no estado em que me encontro, e você ainda me canta palavras tão significativas... Sei que tens pena de mim, eu tenho pena de mim mesma, e para que acreditem no que digo minto ter mais idade do que a que possuo.
Você sabe muito bem o quão é difícil viver, apesar de nunca ter experimentado... você enxerga, você sente através desse sorriso que chega a segar.
Mas não deixa de sorrir... Parece tão fácil!...
Diga-me, Reflexo, como consegue?

domingo, 26 de agosto de 2007

Diálogo

Um olhar desconfiado depois do adeus.
Ele longe, ela ainda lá.
De todo não lhe era confiável nem um pouco.
Fitou as mãos, todos os anéis, e o relógio.
Não confiava em nada nem ninguém, só no seu cachorro vira-lata dengoso e gordo que dormia debaixo da mesa da cozinha o dia todo.
“E ele disse que ela anda meio triste por conta do cachorro do noivo que largou ela um dia desses ai...”
“Pobre dela...”
“Pobre dele que não viu antes onde se metia, você se lembra bem de quem nós estamos falando não lembra?”
“Positivo.”
“Pois então... Pobre dele...”
Agélica era visivelmente atraente, mas não era simpática, nem um pouco, e falava assim, soltando as palavras como cuspe, botando pra fora de si como a galinha bota o ovo.
Era sua única amiga.
“Me diz, e ele já anda com outra não é?”
“Deus lá que sabe.”
“Hum... Então... Solteiro?”
Um olhar desconfiado, ela longe, ela ainda aqui. Não confiava em ninguém.

domingo, 19 de agosto de 2007

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Diálogo.

“É que quando choras vê-se mais claro os teus olhos, sabe...?”
“E por isso me fazes chorar?”
“E por isso te faço chorar?”
“Diz-me que não me ama...”
“Digo que, um dia, virei a amá-la.”
“Faz assim com que sofra mais.”
“Não me é fácil, mas mentir não posso.”
“Como não? Mentistes ontem ao dizer que viria cedo.”
“E vinha mesmo, não menti, ocorreu-me um imprevisto, por isso atrasei-me.”
“Hum...”
“E como disse também ontem, terei de retirar-me cedo.”
“Cedo? Cedo quando? Cedo agora?”
“Cedo daqui a pouco.”
“E faz-me sofrer novamente.”
“Só para te fazer feliz um dia.”
“Um dia...”
“Um dia...”
“Percebestes que de quando em vez nos olha desconfiado?”
“Sente inveja, é um homem solitário.”
“Não, é porque és um velho já, e eu uma menina.”
“Menina não és, já tens carteira, já dirige, já se cuida.”
“E trabalho, e moro só, e amo um velho.”
“E ama um velho...”
“Vê, é fácil dizer, difícil é sentir.”
“É merecer sentir.”
“Amo um velho sábio.”
“Amas um velho bobo.”
“Um professor.”
“Um bobo.”
...
“Já viu como sorri Adélia junto às camélias?”...
...

Que forma tem, que forma terá? Teu nome...

Ri-se assim, sem motivos
Inventa graça sobre a graça,
Nada nem nunca, nunca nem nada
Gota sobre gota faz-se a forma, o ritmo
Ouve, tão belo! Nem sabes...

Separa doce do amargo, azedo
Traça o que de traçarem se esquecem
Ásperos o são, deixa que sejam, não és
Revela o que revelar é preciso
Renova, é suave, encantador, efervescente!

Discute-se o amor.

Discute-se o amor:
“Porque te amar não posso eu?”
“Amar simples não é.”
“Com minhas conseqüências arco.”
“Arca com teus desgostos e tuas faltas? E minhas faltas e meus desgostos?”
“E com teus beijos e teus abraços...”
“E lágrimas e ciúmes de ambos os lados?”
“Teu doce sabor, teu calor...”
“Basta! Demasiado já sei que a mim entender não queres!”
“...”
“Não vê que o céu, mesmo em amor, volta-se do mar para o infinito?!”
“Por outro lado, volta-se o mar a si mesmo por medo de amar!”
“Veja como as rosas ao amar nascem murchas!”
“Murchas nascem, pois sua vida sentido não mais faz sem aquele a quem amam ao seu lado na primavera próxima!”
“Olha o quanto chora aquele que o amor toca...”
“Olha tu o quanto ri aquele que por este é escolhido!”
“Faz-me lembrar as ondas que na praia quebram, antes felizes em seu nado ondulado, depois tristes pela quebra de seus alvoroços, pela queda do amor próprio!”
“E recaídas voltam ao mar aberto para depois serem hoje o que antes eram, em sorrisos contempladores e desejo acima do desejo!”
“Rogo pelo amor, entenda, mas dele só quero o sonho...”
“Sonhos que tudo são a ele não merecem!”
“E mereço eu? Eu que daqui me volto a esta bela terra trazendo-lhe o medo e o desespero duma escuridão maldosa?!”
“A escuridão precisa! A noite dos amantes! O vício do poeta, do pintor, do escultor...!”
“O choro da criança, o rancor dos odiados!”
“Mas que dizeis minha Lua, minha amante!”
“E choro.”
“Mas choras porque?”
“Por amada não ser, nem poder...”
“Pois, querida, digo-lhe eu, temor não tenhas, nem ódio, nem rancor, nem te sintas o que não és! Saibas assim, que por entre estes raios imaculados, és tu Lua, e eu Sol, a um somos, a um seremos, e sempre traremos a esta podre e opaca terra, sua glória, sua forma, sua história!”

domingo, 29 de julho de 2007

Fábula.

Nossa historia começa num tempo breve e independente, de reis e rainhas, onde nos campos vivia ela, aquela de quem a historia lhes contarei, a qual o nome se dera Anthea pois bela era, como os jardins da antiga Grécia na primavera esperada.
Nos cabelos tinha o alaranjado da jasmim, nos lábios o vermelho da rosa, na pele o rósea da flor-de-cerejeira, e os olhos lhe eram azuis como a mais clara das orquídeas azuladas.
Feliz era Anthea, já menina, quando pela primeira vez o amor lhe brotou em seio. Era jovem como o céu de verão e verdejante como os campos em que corria ao lado de seu amado.
Não sabia aquele o qual por nome era chamado Athos, que lhe tinha amor a gentil amiga.
A muito se conheciam e a muito brincavam juntos por debaixo das macieiras.
Primavera era, quando ainda corriam os dois jovens pelo campo florido, inocentes do acontecido, da chegada daquela dita a mais bela das belas filhas de Basileu.
Deram-se a correr a encontro daquela que o seu Tio lhe trazia a apresentar como prima. Anthea a visou em primeiro, admirada, era real a beleza daquela prima de Athos? Lembrava as seguidoras de Afrodite, que até ali eram o seu exemplo de beleza.
Procurou então os olhos de Athos para ver-lhe o quão a achara bonita, caíram-se sobre eles risonhos para deles desviarem entristecidos.
Olhavam os olhos dele a sua prima como a ela nunca olharam, olhos bobos, apaixonados.
Infeliz ficou a pobre Anthea, não mais seu fiel amigo com ela pelos campos corria, não mais com ela brincava por debaixo das macieiras, pois sua atenção agora voltada era, aquela a qual chamava-se Acácia.
Foi perto do fim do inverno quando soube nossa menina do casamento de seu jovem amado com sua prima Acácia.
Se ia o sol para dar lugar a lua, sozinha chorava Anthea, numa colina recostada ao tronco da mais velha macieira das terras de seu pai Galén.
Sussurros ouviu, e assustada levantou-se precipitada. Deu-se com uma bela serpente esverdeada mas dum verde tão claro e puro que maravilhada ficou a fita-la.
-Porque choras doce menina?
Perguntou-lhe a víbora.
-Ó senhora Serpente, choro por desamor a mim mesma, choro, pois não pude eu ter o amor ou sequer olhar daquele a quem tanto amo!
-Mas como se pode tal, criança, pois de tuas lágrimas pressinto o puro, e de tua pele se exala a beleza como das flores a flagrância.
-Sei apenas, senhora, que dele nunca um olhar sequer eu tive, e carinhos dele os recebi como dum irmão, fez-me amá-lo sem saber, e agora que chegou-se prima sua á de casar-se com ela e a mim deixar a morte, pois sem seu coração á o meu de perecer de encontro ao chão!
-Animo criança! Quando há de casar-se teu amado?
-Três dias após o inicio da primavera!
-Ora, menina, teu amado chama-se Athor filho de Glicério dono dos vinhedos?
-Ó sim... É esse o nome que leva o ladrão de meu amor!
-Fui para sua festa de noivado convidada, durará essa três dias e três noites, os três primeiros dias da mais feliz estação do ano para ao casal dar sorte e prosperidade, festejarão em nome de Baco e Afrodite.
-E assim será minha tristeza mais forte ainda, pois a ele verei em braços dela.
-Animo menina! Temos tempo ainda! Veja o que faremos: No primeiro dia, quando a lua vir a aparecer sorrateira nesse céu de Zeus, tu subirás a essa colina novamente e aqui estando pedirá com carinho á duas dessas belas estrelas seu brilho, para que a ele possa usar como brinco. Feito isso teu amado á de olhar-te sem falta, pois eu mesma usei desse para casar-me com a serpente com quem hoje vivo!
-Como hei de agradecer-te senhora bondosa?
-Agradecimentos não preciso de ti quero apenas aquela maçã lá no alto, a mais vermelha de todas.
Anthea subiu no galho da macieira e de lá tirou a maçã pedida, a entregando a serpente amiga, e dela despedindo-se com um beijo agradecida.
Não reparou Anthea ao virar-se, tão feliz estava, que a serpente agora era uma mulher tão bela que da lua arrancou suspiros apaixonados e dos grilos um canto enamorado.
Chegou-se o primeiro dia da primavera, e junto a esse o primeiro dia de festa. Ao cair da noite subiu Anthea a colina, e lá sentou-se cantando baixinho uma cantiga que a tanto preparara ela:
-Ó estrelas belas
Que a mim tamanha
esperança trouxeram,
Teu brilho antes por
Mim usado,
Os olhares de meu amado
Fará que a mim retornem!
Ó estrelas cintilantes,
Emprestem-me
Tua ilustre cintilação
Para que assim,
Possa eu amar e
Finalmente ser amada!
Duas estrelas a ela desceram encantadas, e postaram-se cada uma numa orelha. Feito isso desceu Anthea a colina em caminho da festa.
Lá chegando quantos olhares não recebeu! De admiração á inveja! Encaminhou-se á mesa dos noivos para os parabéns a eles dar.
-Felicito os dois com tamanha alegria por uma união tão verdadeira.
Acácia fitou-a com um mero desdém, e Athos, seus olhos sobre ela nem decaíram, tão absorto estava a fitar Acácia sua noiva amada.
Saiu-se dali a pobre Anthea, chorando-se pelo desprezo recebido. Seu coração condoia-se fortemente, e a si desprezava ainda mais por como a Acácia não ser tão bela!
Meteu-se ela pelo jardim da casa, em meio às rosas, o canto da cigarra a fez parar de chorar, sentou-se ali quieta a ouvir canção tão bela.
-Porque tanto choravas menina?
Disse a voz rouca da velha cigarra.
-Chorava eu por não ser bela!
-Que dizes criança, olha para mim, sou velha já, e beleza nunca possui. Tu pelo contrario, a tem em abundancia, e ainda assim te choras, que tamanha ingratidão!
-Peço-lhe desculpas, senhora cigarra, não choro em total por isso, choro por não ser formosa o bastante para daquele a quem amo um único olhar brando não poder conquistar.
-Pois bobo é aquele a quem tu amas por a ti não amar. És tu a formosura em corpo humano como é a rosa em vegetal. Esqueça tal humano menina, atenção aqueles a quem não nos quer não devemos voltar.
-Ora minha senhora, quem sou eu para o coração comandar? Se o amo, o amo por não ter escolha, se por ele choro, choro por a mim fazer feliz e triste ao mesmo tempo! E agora vai ele casar-se com Acácia sua prima, que tamanha formosura a tem que até os olhares de irmão que dele possuía não os possuo mais!
-Olha, quem diria! É teu amado Athos, filho de Libânia?
-Sim, é esse o nome daquele que tanta infelicidade devo!
-Pois tens tempo ainda! Animo menina! Dele ainda um olhar há de ter, nem que seu ultimo seja!
-Mal a não lhe desejo, melhor vivo a amá-lo que morto a lamentá-lo!
-Mal a ele não faremos. Ouça-me menina, se amas tanto a esse humano pecador, ao cair da noite do segundo dia encaminha-te a praia, e lá pede com carinho as ninfas para te emprestarem sua coroa! Com ela tu hás de chamar o olhar daquele a quem tanto amas!
-Como hei de te agradecer, sábia Cigarra?
De ti não quero agradecimentos, vê ali aquela orquídea branca? Me trás ela, assim estaremos quites.
Correu Anthea até o tronco da velha arvore e de lá tirou a bela orquídea entregando-a a cigarra e dessa se despedindo com um beijo agradecido.
Tão feliz estava com a nova esperança que não reparou que era agora a cigarra era mulher, a mesma que da lua arrancara suspiros e dos grilos um canto enamorado.
Veio o segundo dia da primavera, e com ele o segundo dia de festa.
Pôs Anthea os seus brincos do brilho das estrelas e encaminhou-se para o mar, lá chegando sentou-se de frente ás ondas e seus versos começou a cantar:
-Ó ninfas de Netuno,
Quão tamanha formosura
Possuem! Quão doce é o
Teu olhar simplório!
Peço-lhes com carinho,
Admiráveis senhoritas,
Que a mim sua coroa
Emprestem, para que
Assim o olhar daquele
A quem amo a mim mais
Uma vez seja voltado!
Saiu-se das águas uma das filhas de Netuno, a pele azulada e brilhante aos raios da lua chamaram e aos peixes ali presentes uma dança inspiraram.
De sua cabeça a coroa prateada ela tirou, rica como os oceanos de seu pai, e a pôs sobre a cabeça de Anthea que beijou-lhe as faces de tão admirada.
Chegando a festa quantos olhares a ela não eram mandados! Era dali, de longe, a mais bela, chegou-se ela á seu amado, e sua mão estendeu para ser beijada.
-Grande amigo! Não sabes o quão feliz estou em ver-te!
Beijou-lhe Athos a mão mimosa, e com um simples sorriso deixou-a só, Acácia vinha-lhe ao encontro embirrada com alguma coisa.
Agüentou-se por alguns minutos nossa Anthea, até que as lágrimas não mais conseguiu guardar, correu-se até a casa e lá pôs-se a chorar.
Um ronronar mimoso a fez parar e curiosa a vista erguer. Desfilava-se a sua frente uma gata branca como as nuvens em céu de verão.
-Porque chorar jovem menina?
-Ó senhora gata, choro por amar e não ser amada!
-Como se pode isso? Tão bela e formosa és! Cego é aquele que diz tu amar!
-Antes cego fosse! Para assim amar a mim e não a outra! Vê, senhora gata, antes tinha ele olhos para mim, agora só tem olhos a ela, sua prima e noiva, Acácia!
-Ora, não digas que aquele a quem amas é Athos irmão de Leon e Libânio?
-Pois se não é esse aquele o qual meu coração acordou para o amor!
-Animo, criança! Ainda tens tempo! Farás o seguinte se lhe queres um olhar: Ao cair da noite do terceiro dia, debruça-te nessa mesma varanda, aqui defronte ao jardim, e á lua, com carinho, pedes emprestado o vestido que usou ela em seu noivado com Apolo, deus do sol.
-Como posso agradecer a ti, querida senhora?
-De ti não quero agradecimentos, vê aquele ninho pequenino? Traz-me um daqueles ovos e estaremos quites.
Anthea debruçou-se mais ainda na varanda e buscou um dos pequeninos ovos de beija-flor, entregou-o á gata e beijou-lhe o pelo sedoso em agradecimento.
Ao cair do terceiro dia de primavera, veio junto o terceiro dia de festa.
Nossa menina pôs os brincos nas orelhas a coroa na cabeça e dirigiu-se a varanda defronte ao jardim.Debruçando-se a ela cantou seus versos:
-Ó prateada lua, que
Ilumina a noite desalmada,
Ajuda-me lua, querida
Faz com que meu amor
Possa eu conquistar,
Empresta-me teu vestido,
Aquele o qual as núpcias festejou,
Para que assim, possa eu sorrir!
Desceu do céu a lua imperiosa e á Anthea entregou seu vestido, despedindo-se com um aceno de rainha cuidadosa.
Vestiu-se Anthea e encaminhou-se á festa. Ao ali chegar, todos os presentes bestificados ficaram com tamanha beleza aquela da menina de Galén. Era Anthea as estrelas do céu, as ninfas do mar e a luz do luar.
Chegou-se ela a Athos, seu amado, e a seu lado estando disse-lhe baixinho:
-De ti vim me despedir, tanto amor a ti mantive que agora cansasse o coração, queria de ti apenas um ultimo olhar de atenção.
Acácia, que desde que ali era chegada invejara a beleza de Anthea, sussurrou a seu ouvido:
-Boba és, criança, pois se não vê que ele ama a mim, e ainda te enches de esperanças deixe que com elas finde: não te olhará ele, pois á mim ama mais que a si mesmo, seu amor por mim o deixou cego!
Pobre de nossa Anthea, seu sôfrego seio estalou num soluço. Quanto sofria agora a formosa menina! Seu coração morria-se aos poucos, afastou-se dali quase a cair e sentou-se perto de uma roseira branca na grama fresca de orvalho e pôs-se a lamentar seu coração sofrido.
-Porque choras formosa Anthea?
Era Athos que dali aproximara-se em silencio.
-Ó, se almenos tu soubesses...
-Pois conta-me.
Ajoelhou-se ao lado dela.
Anthea lhe contou toda a história, enquanto ele a fitava admirado.
-Vê agora o quanto o amo, quanto sacrifício foi-me feito para de ti arrancar um mero olhar?
Sorriu-se Athos.
-Ora, não vê tu, meu amor, que tanto não era preciso, que meu amor já é infinito, que meu olhar em ti não caia para não sofrer, pois achava eu que amor a mim não tinha? Olha, meu anjo, das estrelas já tens o brilho em teus olhos – Tirou-lhe os brincos das orelhas com carinho e os enviou ás estrelas – das ninfas já tens a singularidade da beleza – tirou-lhe a coroa e a pôs de lado – e da lua, querida Anthea, possui tu o brilho que até a mais densa noite é capaz de clarear.
Anthea chorou-se.
-Porque ainda choras meu amor?
-Choro de felicidade, pois agora posso eu dizer que te amo como nunca antes amei!
Ele lhe cingiu a cintura e a trouxe para junto de si, seus lábios se encontraram num puro e brando beijo de amor.
Ao longe surgiu uma gata branca escondida pela ramagem das arvores, sentada num dos galhos mais densos, transformou-se ela em mulher, a mesma mulher que antes era serpente, que antes era cigarra. Fitou os céus rindo-se, e a um pequenino beija-flor que voava ao seu lado ela dirigiu-se:
-Vê, o que faço, faço-o direito! Se é amor, que seja verdadeiro! E só em amor verdadeiro ama-se e é-se amado!

...

Pois não é o amor auto-destrutivo?
Desse amor, por mais duro e dolorido que seja, nada posso tirar de proveitoso, ela não me ama.
É uma ingrata? Não acho que seja. A amei desde que a vi pela primeira vez, ou não, talvez me engane, vim a amá-la depois.
Não sei bem o que me leva a amar alguém da forma que amo, que chegue a perder o sono, a fome, e minha mente gire em torno da vida daquela a que me vejo a amar.
Cá entre nós, se é mais difícil esquecer aquele a quem não nos ama, a quem nos ama.
Não sabe ela que a amo, não revelo meu amor à pessoa viva, amor meu só Deus o sabe, e reconhece.
Se sou louco? E quem não o é? Penso nela a cada 10min , e tu, que a ninguém tem a pensar vem e chama-me de louco? Melhor louco que normal. Pois os normais não amam, é impossível a tais pessoas sentirem tal sentimento, sentem outros, culpa, vergonha talvez, mas não amor, já não é o amor em si próprio um louco?
Vejamos, eram umas 7h30min agora, então já estava acordado faziam-se 15min. Ela ressonava ao meu lado num sono de criança, como se o mundo não fosse o mundo que é e ela não fosse minha amante.
Levantei-me da cama e tateei por entre as cobertas a procura de minhas calças. Fechei o zíper com cuidado, como se qualquer ruído a pudesse arrancar do sonho que sonhava, se é que sonhava.
Saí pelo quarto na ponte dos dedos á procura de meus cigarros, os encontrei debaixo de um casaco jogado no chão, o isqueiro estava em cima duma estante preenchida por porta retratos. Uma estante brega e sentimental. Não as possuía dessa maneira em casa, nem eu nem Débora aprovávamos esse tipo de móvel, nesse marrom velho e ressecado, que parece feder a mofo, mas que na verdade não fede. E essas fotos em molduras coloridas e chamativas.
Sentei-me na poltrona ao lado da janela. Nenhum raio de luz penetrava pela cortina que ontem à noite após fazermos amor ela teve o cuidado de fechar para que o sol não nos acordasse cedo.
Deixei-me observá-la compenetrado, traçar-lhe os traços com os olhos. Era bonita, muito bonita, coisa que Débora não era. Ainda me pergunto como mulher tão bonita ia querer alguém assim, como sou. Não que seja feio, feio não sou, mas também não sou belo, sou velho, isso sim, tenho 45 e ela, 21.
Talvez seja o intelecto, homens com poder atraem moças. Mas não digo poder sobre outros, nem sobre coisas materiais, não sou pobre, claro, sou um bom advogado, mas eu digo poder sobre si mesmo, poucos homens possuem poder sobre si mesmos hoje em dia, talvez seja por isso que ela me queira.
“Ainda é cedo...”
Sussurrou numa voz miúda, aquela voz de semi-acordados, carinhosa e roca.
“Sim, ainda é cedo...”
Desviei meus olhos dela, para que não percebesse que a contemplava maravilhado. É muito orgulhosa, passaria o dia a se mostrar.
“Vem cá, deita aqui ao meu lado.”
Fiquei sentado, calado, vendo a fumaça do cigarro desaparecer naquele balé espantoso e mórbido.
Não lembro o porquê de ter começado a fumar, talvez fosse muito moço. Achava bonito, era isso, tinha dedos bonitos e achava bonito, ficava com mais ares de mim mesmo, por isso comecei a fumar.
Ela se sentou na cama um tempo absorta em pensamentos o olhar distante, me olhou preguiçosa.
“Dá-me um.”
Lhe dei o que tinha em mãos.
Ela levantou-se depois dum tempo, calada, caminhou até a grande janela e abriu as cortinas, o cigarro no canto da boca, quase caindo.
Não tinha vergonha da sua nudez. Andava sempre assim, totalmente nua ou só de calcinha, me deixava bobo.
Já Débora era a prova viva do pecado da maçã. Nunca ficava nua, nem sequer na minha frente, até amor ela fazia vestida.
Ficou ali, sem vergonha das varandas longínquas dos outros apartamentos. Também não sei o motivo de ter uma amante, amá-la não a amo, amo a Débora.
“Você lê sempre?”
Foi ela quem começou o flerte, mas em resto eu segui adiante. E agora estávamos juntos á nove meses.
“Aonde nós estamos indo, Danilo?”
Silêncio.
“A lugar algum, você sabe...”
Silêncio.
“Não acho que posso mais continuar dessa maneira...”
“Não diga isso... Sabe que te amo...”
Mentira.
“Amar não ama. Eu posso parecer burra, Danilo, mas burra eu não sou.”
“Ninguém aqui disse nada do gênero.”
Me levantei e fiquei a seu lado.
Me olhou como quem sofre, tive pena.
“Não posso continuar assim, me metendo com alguém com quem não terei futuro.”
“E quem disse que não terá?”
“Você não vai deixá-la...”
Silencio.
“Melhor sozinha do que sofrendo assim como sofro. Não podemos sair de mãos dadas na rua como duas pessoas compromissadas que somos, não nos falamos quando nos encontramos em alguma loja, e sou eu que sofro quando te encontro com ela.”
“Não faça isso comigo, amor...”
“Isso o que?...”
“Isso...”
“Não estou fazendo absolutamente nada, só lhe digo a verdade, estou cansada.”
Silencio.
“Não deveríamos mais ficar juntos...”
Silêncio.
Foi até a cama, puxou uma das cobertas e se cobriu. Me mostrou o dedo indicador apontando para a porta:
“Adeus Danilo...”

sexta-feira, 20 de julho de 2007