segunda-feira, 18 de junho de 2007

É-se fácil viver, difícil é atar-se a seus problemas.

É um restaurante de segunda, mas é um bom restaurante. Sempre nos encontramos aqui quando ele tem por voltar á cidade. Está já meia hora atrasado, sempre foi assim, nunca pontual.
Nos conhecemos a mais ou menos 3 á 4 anos, era eu um aspirante e ele um veterano. Ele sempre se queixando da falta de inspiração e eu de minhas poucas palavras. Me critica a toda força e demonstra inveja pela minha facilidade de escrita, mas no fundo sabe que sua demora por ter o que escrever o compensa, pois me supera a cada palavra, e é ai que eu lhe substituo papel e passo a ser o invejoso.
Senta-se em minha frente sem dar palavra, com seus ares de ignorante, e seu corpo fora do peso. Olha para as pessoas ao redor e quando nota meu sorriso sarcástico faz um barulho com a língua nos dentes e diz:
-Não me venha com teus bons humores de jovem, Diego, estou passado!
Sorrio-lhe caridoso por seja lá quais forem suas dores de consciência de gente velha.
-E como vão os meninos?
Puxo para junto de mim a xícara de café que me traz a garçonete, e ele me responde enquanto observa as suas belas curvas femininas:
-Estão ótimos... Aline arranjou um namorado novo... Tanto pedi eu a Deus que me desse apenas homens.
Rio a bom grado dessa sua “desgraça”, ele me olha irônico:
-Inda irás sofrer com isso Diego, podes apostar!
E ri-se finalmente.
Fito-lhe com o canto dos olhos, para que não perceba que lhe decoro os pensamentos e as maneiras, finjo brincar com o guardanapo enquanto lhe traço o primeiro fio de sua personalidade. Parece-me um segurança aposentado...
-Não me faças um dos teus personagens mórbidos, meu caro, estou bem como estou.
É-me engraçado pensar que já reconhece quando traço o perfil de meus personagens “mórbidos” como diz ele.
-Acho que Clarissa anda a me trair...
O fito espantado, esta recostado na cadeira a palitar os dentes amarelos do fumo.
-Não seja bobo, Clarissa não te trairias, são tuas paranóias de escritor, fazemos muito caso do pouco...
-Não te faças de imbecil Diego! Não achas que não conheço minha própria mulher?!
Calo-me enquanto busco nos bolsos da jaqueta a sombra de algum cigarro perdido.
-... Anda-me com poucas palavras... Chega tarde em casa e não me dá palavra...
Me dá um de seus cigarros baratos, o acende, agradeço.
-São coisas de casais, meu amigo, verá que é apenas uma fase.
Ele se remexe na cadeira de cenho franzido:
-Que seja...
Nunca traí apesar de ter uma imensa curiosidade de saber como me sentiria sendo um traidor. Machuco as mulheres em seus mais finos sentimentos, brinco com elas por diversão, e elas brincam comigo, coisa de criança, viver um atrás do outro em malícias inocentes.
Nem nunca fui traído. Acho eu...
Saber pelo que passa tão querido amigo meu é um tanto... Forçado, podemos dizer... Ou ser-me-á fácil?
-Já não escrevo faz-se uns 6 meses... Estou passado, Diego, ando em desgosto atrás de outro, é-me Clarissa e essa minha duvida, é-me Aline e aquele vagabundo que se diz um bom advogado... E meu mais novo, que agora quer seguir essa carreira desgraçada de jornalista... Nem tempo de olhar as estrelas tenho eu.
E enquanto me fala ele de seus problemas paro para pensar que nunca o imaginei o tipo de homem que sequer olha as estrelas. Acho que nem eu pareço esse tipo de homem... Que para horas em frente ao céu pensando em nada...
Não entremos em poesia.
Levanta-se e pega seu casaco. Passou uns 4 minutos enquanto lhe traçava um novo perfil, quatro minutos calado a fitar a grande Rio de Janeiro bela e animada.
-Tenho de ir-me, combinei de encontrar-me com Elena ainda hoje, sabes como ela é, não gosta de atrasos... Falando em Elena, tu andas a vê-la estes tempos? Acho que anda a esconder-me um bom romance...
-Não a vejo a um bom tempo...
Abaixo os olhos, minto, a vi ontem de noite, adormeceu ao meu lado enquanto lhe recitava um soneto do grande Álvares de Azevedo.
-Bem... Tentarei arrancar-lhe algo hoje. Encontremos-nos ainda um dia desses, sim meu amigo?
E vai-se sem meu adeus.
Escritores não precisam de palavras doces, descobrem a si mesmos, eles próprios se consolam... Diga-nos algo para que não nos lamentemos e te olharemos com um olhar superior. Somos animais estranhos, melhor deixar-nos em nosso canto, em nossos pensamentos...

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