domingo, 26 de agosto de 2007

Diálogo

Um olhar desconfiado depois do adeus.
Ele longe, ela ainda lá.
De todo não lhe era confiável nem um pouco.
Fitou as mãos, todos os anéis, e o relógio.
Não confiava em nada nem ninguém, só no seu cachorro vira-lata dengoso e gordo que dormia debaixo da mesa da cozinha o dia todo.
“E ele disse que ela anda meio triste por conta do cachorro do noivo que largou ela um dia desses ai...”
“Pobre dela...”
“Pobre dele que não viu antes onde se metia, você se lembra bem de quem nós estamos falando não lembra?”
“Positivo.”
“Pois então... Pobre dele...”
Agélica era visivelmente atraente, mas não era simpática, nem um pouco, e falava assim, soltando as palavras como cuspe, botando pra fora de si como a galinha bota o ovo.
Era sua única amiga.
“Me diz, e ele já anda com outra não é?”
“Deus lá que sabe.”
“Hum... Então... Solteiro?”
Um olhar desconfiado, ela longe, ela ainda aqui. Não confiava em ninguém.

domingo, 19 de agosto de 2007

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Diálogo.

“É que quando choras vê-se mais claro os teus olhos, sabe...?”
“E por isso me fazes chorar?”
“E por isso te faço chorar?”
“Diz-me que não me ama...”
“Digo que, um dia, virei a amá-la.”
“Faz assim com que sofra mais.”
“Não me é fácil, mas mentir não posso.”
“Como não? Mentistes ontem ao dizer que viria cedo.”
“E vinha mesmo, não menti, ocorreu-me um imprevisto, por isso atrasei-me.”
“Hum...”
“E como disse também ontem, terei de retirar-me cedo.”
“Cedo? Cedo quando? Cedo agora?”
“Cedo daqui a pouco.”
“E faz-me sofrer novamente.”
“Só para te fazer feliz um dia.”
“Um dia...”
“Um dia...”
“Percebestes que de quando em vez nos olha desconfiado?”
“Sente inveja, é um homem solitário.”
“Não, é porque és um velho já, e eu uma menina.”
“Menina não és, já tens carteira, já dirige, já se cuida.”
“E trabalho, e moro só, e amo um velho.”
“E ama um velho...”
“Vê, é fácil dizer, difícil é sentir.”
“É merecer sentir.”
“Amo um velho sábio.”
“Amas um velho bobo.”
“Um professor.”
“Um bobo.”
...
“Já viu como sorri Adélia junto às camélias?”...
...

Que forma tem, que forma terá? Teu nome...

Ri-se assim, sem motivos
Inventa graça sobre a graça,
Nada nem nunca, nunca nem nada
Gota sobre gota faz-se a forma, o ritmo
Ouve, tão belo! Nem sabes...

Separa doce do amargo, azedo
Traça o que de traçarem se esquecem
Ásperos o são, deixa que sejam, não és
Revela o que revelar é preciso
Renova, é suave, encantador, efervescente!

Discute-se o amor.

Discute-se o amor:
“Porque te amar não posso eu?”
“Amar simples não é.”
“Com minhas conseqüências arco.”
“Arca com teus desgostos e tuas faltas? E minhas faltas e meus desgostos?”
“E com teus beijos e teus abraços...”
“E lágrimas e ciúmes de ambos os lados?”
“Teu doce sabor, teu calor...”
“Basta! Demasiado já sei que a mim entender não queres!”
“...”
“Não vê que o céu, mesmo em amor, volta-se do mar para o infinito?!”
“Por outro lado, volta-se o mar a si mesmo por medo de amar!”
“Veja como as rosas ao amar nascem murchas!”
“Murchas nascem, pois sua vida sentido não mais faz sem aquele a quem amam ao seu lado na primavera próxima!”
“Olha o quanto chora aquele que o amor toca...”
“Olha tu o quanto ri aquele que por este é escolhido!”
“Faz-me lembrar as ondas que na praia quebram, antes felizes em seu nado ondulado, depois tristes pela quebra de seus alvoroços, pela queda do amor próprio!”
“E recaídas voltam ao mar aberto para depois serem hoje o que antes eram, em sorrisos contempladores e desejo acima do desejo!”
“Rogo pelo amor, entenda, mas dele só quero o sonho...”
“Sonhos que tudo são a ele não merecem!”
“E mereço eu? Eu que daqui me volto a esta bela terra trazendo-lhe o medo e o desespero duma escuridão maldosa?!”
“A escuridão precisa! A noite dos amantes! O vício do poeta, do pintor, do escultor...!”
“O choro da criança, o rancor dos odiados!”
“Mas que dizeis minha Lua, minha amante!”
“E choro.”
“Mas choras porque?”
“Por amada não ser, nem poder...”
“Pois, querida, digo-lhe eu, temor não tenhas, nem ódio, nem rancor, nem te sintas o que não és! Saibas assim, que por entre estes raios imaculados, és tu Lua, e eu Sol, a um somos, a um seremos, e sempre traremos a esta podre e opaca terra, sua glória, sua forma, sua história!”