quinta-feira, 22 de novembro de 2007

E das Horas fez-se a Rosa. (Segunda Carta)

E lhe respondo finalmente meu amigo, por muito esperei tua carta, cheguei a pensar que não mo responderia, fiquei realmente triste com tal idéia, e agora que lhe posso ler as palavras. Deixa-me realmente contente.
Em resposta a tua pergunta: Sim, realmente adoro esse “Fim do mundo” para usar tuas próprias palavras. Faz-me sorrir cada pedrinha com que topo em meu caminho. Sinto-me fantástica, não vos minto, não meu amigo, por outro lado, vos sou demasiadamente sincera.
Me falas de tua atual amante, ora, se te queres meter com tais mulheres estás por si mesmo. De muito venho a avisar-te sobre essa dama pela qual andas enamorado, é de certo nada sincera, a maioria o é, mas quem sou eu para dizer-te tais coisas, nunca escutastes meus conselhos sobre teu coração, e sempre que tens por sofrer vem queixar-se a mim. E te recebo de braços abertos, e lhe digo hei de receber-te sempre, não só por ter-lhe como grande amigo, mas pelo pequenino prazer de poder dizer-lhe: Avisei-lhe não avisei?
Mas deixemos teus desencantos com damas para mais tarde, fala-me, como vão os negócios em tua fazenda? Espero que tudo vá demasiadamente bem.
Me perguntastes do povo desse vilarejo. Pois lhe digo que nunca encontrei pessoas mais simplórias, são um amor em muitos modos. Me receberam demasiadamente bem, e tenho tantas casas a ir, e jantares, que certamente não sei como recusar a um e outro convite.
As crianças são as que mais me encantam, curiosas feito ratinhos brancos, me enchem de perguntas, e me sinto obrigada a responder-lhes tudo. De todas prefiro Anita, uma menininha de seis anos, muito esperta, senta-se sempre ao meu lado e traz-me um livro para que o leia para ela, quando tenho por visitar a casa de sua mãe.
Bem si que agora estás por perguntar-se sobre minha paixão, deixei-a de lado, pelo menos por esse pouco tempo em que conheço a vila. Peço para que me perdoe, deves me chamar de preguiçosa, pois sim! Eu o sou! Mas que vergonha de mim mesma...
Ora meu bom amigo, entenda-me, lhe peço para que me entenda.
Prometo-lhe que tentarei chegar perto de meu instrumento assim que sentir-me abita a isso. Ate lá, contentar-me-ei com os livros que agora tenho tempo para ler.

Um grande abraço de tua adorada e sempre amiga.

domingo, 18 de novembro de 2007

Rascunhos

Estava sentada no sofá com a mente um pouco distante quando ele se dirigiu a mim, ele disse:
-Quando pretende ir embora?
Juro que quis rir, ele não era muito de indiretas, na verdade era sempre direto, não se importava com porra de sentimentos de ninguém, e certamente não dava a mínima para mim e meu orgulho ferido.
Fiquei o encarando um pouco, fingindo que não o ouvira direito e estava colocando os sons em seus respectivos lugares de modo a formar a frase que dissera.
Na verdade queria que ele repetisse, ele ficava puto, quando era forçado a repetir algo que acabara de dizer.
E ele repetiu. Então fui forçada a responder.
-Não sei... Por quê? Vai sair com uma de suas putinhas?
E falei ponderando as palavras, prolongando as pausas.
-Já lhe disse que não lhe quero com esse tipo de linguagem em minha casa, quantos anos você tem? Quinze? ... Afinal de contas, por onde anda sua mãe?
O encarei.
-Tem um cigarro?
Ele me deu um desses olhares reprovadores que os adultos fazem tão bem.
Fui obrigada a sair, certamente não queria falar de minha mãe e o puto de seu namoradinho, e obviamente não estava com humor para ouvir um sermão dum velho tarado.
Quer dizer, tarado ele não era. Era até legal, tentava sempre me corrigir, eu o achava hilário.
Sai do apartamento e fui seguindo o corredor até o elevador.
Meio dando pulinhos como uma menininha de dez anos.
-Hey! Hey!
Era alguém que me chamava, parei de dar pulinhos e segui andando normalmente, meia constrangida, era o loco do meu vizinho, um maluco que só se veste de preto e usa pircings pela cara toda, juro que quase não dá para ver a pele, de tão cheio de metal que ele é.
Ele continuou gritando, mas segui direto e desci as escadas, ele podia me alcançar no elevador e eu certamente não queria topar com o maluco do ferro.

-Tem um cigarro?
-O que? Você não fuma.
-Mas acho uma frase legal, que me diz? Olha, tenta: Tem um cigarro, ou me dá um cigarro, ou sei lá o que... Que me diz?
-Que você é completamente louca. Olha, o tal do Zé louco tava atrás de ti, que quer ele contigo?
Esse era o menino da praça, só conheço ele dali mesmo, mas ele sabe meus segredos mais obscuros. Tem esse jeito de falar, vez ou outra, como se fosse um velho. Imitando um personagem de terno e cartola dum romance.
-Tá com ciúmes?
E ouvi ele sussurrar:
-Me dá um cigarro.

sábado, 17 de novembro de 2007

E das horas fez-se a rosa. (Primeira Carta)

Escrevo a ti, finalmente, de minha atual moradia. E lhe confesso, meu doce amigo, que é certamente uma maravilha. Pequenina e aconchegante, do modo o qual sempre busquei, sei que não a aprovarias, e me dirias (posso imaginá-lo claramente a fazê-lo e me faz rir sozinha) “Quão tolo procurar algo o qual só procuram aqueles que não podem ter mais, podendo tu ter o que bem sonhares.” Sempre cheio de suas excessivas palavras. E já sinto tua falta.
Cheguei ontem a esse belo lugar de nosso Brasil, quase que não tocado pelo homem, e só não lhe escrevi ontem mesmo pois não encontrei forças depois de examinar a casa tão meticulosamente, e de informar aos criados os quartos exatos para serem postas as bagagens.
E são em momentos como esse que sinto por não ser homem! Bem sabes o modo como me olham os criados, as mulheres não muito, mas os homens me olham como que a duvidar de minhas palavras e decisões. E sinto-me certamente feminina, e tão frágil quanto uma flor quando tem esses olhares a tocarem os meus.
O sul é levemente mais fresco, mais doce, e busco mais palavras para descrevê-lo a ti, sei o quanto gosta de minhas palavras tão má escolhidas (nem sabes o quanto sinto a falta de tuas afirmações!).
Por ora lhe descreverei, esta casinha simples na qual viverei alguns tempos negros de minha profissão. Assim que encontrei com sua fachada apaixonei-me, o meticuloso portãozinho que a protege da entrada de estranhos é simplesmente um amor. Em seguida meus olhos decaíram-se sobre as plantas tão crescidas que já enchiam o jardinzinho de boneca, como decidi chamá-lo por sua pequenez, (tudo aqui parece ter sido feito para uma criança, e me deixa bastante deliciada.) não existem arvores ali (olho diretamente para ele) mas sim ervas-daninhas e algumas flores as quais não conheço, mas disse-me a criada que foram plantadas pelo antigo dono.
De resto é como qualquer outra pequenina casa, poucos quartos, (em baixo encontram-se apenas a sala de visitas e a cozinha, que tem sua entrada escondida pela escada.) na parte superior estão o meu quarto e o da criada, mais um pequeno closet que cuidei para que ali construíssem uma estante na qual organizarei meus livros.
Decidi que não farei reformas nessa adorável casa, quero-a ao modo do seu criador, e deves rir, sei que bem reconheces que certamente gosto da identidade daqueles mais antigos, que gosto das coisas já usadas pelo seu ar romântico e sobrenatural.
Mas certamente terei de mexer no jardinzinho de boneca, aparar as roseiras, ou a casa parecerá abandonada, e é algo que não quero.
Já é noite, e vi que gastei mais de hora tentando escrever-lhe essa carta. Quero que seja por demasiado bem recebida por ti, meu grande amigo. Amanha me porei a trabalhar no jardim. Peço-lhe para que não me pergunte sobre meu coração, minha profissão haverá de esperar pelo jardinzinho de boneca, minha musica que foge de mim como as crianças de um quarto escuro, e o que não sou eu além dum quarto escuro?
Mando-lhe um logo abraço, e um gracioso, mas simples beijos nestes teus lábios que nunca cheguei a tocar.
Responda-me o quanto antes, sabes que não aprecio a solidão.

De sua querida Cecília, com devotado amor.