domingo, 18 de novembro de 2007

Rascunhos

Estava sentada no sofá com a mente um pouco distante quando ele se dirigiu a mim, ele disse:
-Quando pretende ir embora?
Juro que quis rir, ele não era muito de indiretas, na verdade era sempre direto, não se importava com porra de sentimentos de ninguém, e certamente não dava a mínima para mim e meu orgulho ferido.
Fiquei o encarando um pouco, fingindo que não o ouvira direito e estava colocando os sons em seus respectivos lugares de modo a formar a frase que dissera.
Na verdade queria que ele repetisse, ele ficava puto, quando era forçado a repetir algo que acabara de dizer.
E ele repetiu. Então fui forçada a responder.
-Não sei... Por quê? Vai sair com uma de suas putinhas?
E falei ponderando as palavras, prolongando as pausas.
-Já lhe disse que não lhe quero com esse tipo de linguagem em minha casa, quantos anos você tem? Quinze? ... Afinal de contas, por onde anda sua mãe?
O encarei.
-Tem um cigarro?
Ele me deu um desses olhares reprovadores que os adultos fazem tão bem.
Fui obrigada a sair, certamente não queria falar de minha mãe e o puto de seu namoradinho, e obviamente não estava com humor para ouvir um sermão dum velho tarado.
Quer dizer, tarado ele não era. Era até legal, tentava sempre me corrigir, eu o achava hilário.
Sai do apartamento e fui seguindo o corredor até o elevador.
Meio dando pulinhos como uma menininha de dez anos.
-Hey! Hey!
Era alguém que me chamava, parei de dar pulinhos e segui andando normalmente, meia constrangida, era o loco do meu vizinho, um maluco que só se veste de preto e usa pircings pela cara toda, juro que quase não dá para ver a pele, de tão cheio de metal que ele é.
Ele continuou gritando, mas segui direto e desci as escadas, ele podia me alcançar no elevador e eu certamente não queria topar com o maluco do ferro.

-Tem um cigarro?
-O que? Você não fuma.
-Mas acho uma frase legal, que me diz? Olha, tenta: Tem um cigarro, ou me dá um cigarro, ou sei lá o que... Que me diz?
-Que você é completamente louca. Olha, o tal do Zé louco tava atrás de ti, que quer ele contigo?
Esse era o menino da praça, só conheço ele dali mesmo, mas ele sabe meus segredos mais obscuros. Tem esse jeito de falar, vez ou outra, como se fosse um velho. Imitando um personagem de terno e cartola dum romance.
-Tá com ciúmes?
E ouvi ele sussurrar:
-Me dá um cigarro.

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