domingo, 29 de julho de 2007

Fábula.

Nossa historia começa num tempo breve e independente, de reis e rainhas, onde nos campos vivia ela, aquela de quem a historia lhes contarei, a qual o nome se dera Anthea pois bela era, como os jardins da antiga Grécia na primavera esperada.
Nos cabelos tinha o alaranjado da jasmim, nos lábios o vermelho da rosa, na pele o rósea da flor-de-cerejeira, e os olhos lhe eram azuis como a mais clara das orquídeas azuladas.
Feliz era Anthea, já menina, quando pela primeira vez o amor lhe brotou em seio. Era jovem como o céu de verão e verdejante como os campos em que corria ao lado de seu amado.
Não sabia aquele o qual por nome era chamado Athos, que lhe tinha amor a gentil amiga.
A muito se conheciam e a muito brincavam juntos por debaixo das macieiras.
Primavera era, quando ainda corriam os dois jovens pelo campo florido, inocentes do acontecido, da chegada daquela dita a mais bela das belas filhas de Basileu.
Deram-se a correr a encontro daquela que o seu Tio lhe trazia a apresentar como prima. Anthea a visou em primeiro, admirada, era real a beleza daquela prima de Athos? Lembrava as seguidoras de Afrodite, que até ali eram o seu exemplo de beleza.
Procurou então os olhos de Athos para ver-lhe o quão a achara bonita, caíram-se sobre eles risonhos para deles desviarem entristecidos.
Olhavam os olhos dele a sua prima como a ela nunca olharam, olhos bobos, apaixonados.
Infeliz ficou a pobre Anthea, não mais seu fiel amigo com ela pelos campos corria, não mais com ela brincava por debaixo das macieiras, pois sua atenção agora voltada era, aquela a qual chamava-se Acácia.
Foi perto do fim do inverno quando soube nossa menina do casamento de seu jovem amado com sua prima Acácia.
Se ia o sol para dar lugar a lua, sozinha chorava Anthea, numa colina recostada ao tronco da mais velha macieira das terras de seu pai Galén.
Sussurros ouviu, e assustada levantou-se precipitada. Deu-se com uma bela serpente esverdeada mas dum verde tão claro e puro que maravilhada ficou a fita-la.
-Porque choras doce menina?
Perguntou-lhe a víbora.
-Ó senhora Serpente, choro por desamor a mim mesma, choro, pois não pude eu ter o amor ou sequer olhar daquele a quem tanto amo!
-Mas como se pode tal, criança, pois de tuas lágrimas pressinto o puro, e de tua pele se exala a beleza como das flores a flagrância.
-Sei apenas, senhora, que dele nunca um olhar sequer eu tive, e carinhos dele os recebi como dum irmão, fez-me amá-lo sem saber, e agora que chegou-se prima sua á de casar-se com ela e a mim deixar a morte, pois sem seu coração á o meu de perecer de encontro ao chão!
-Animo criança! Quando há de casar-se teu amado?
-Três dias após o inicio da primavera!
-Ora, menina, teu amado chama-se Athor filho de Glicério dono dos vinhedos?
-Ó sim... É esse o nome que leva o ladrão de meu amor!
-Fui para sua festa de noivado convidada, durará essa três dias e três noites, os três primeiros dias da mais feliz estação do ano para ao casal dar sorte e prosperidade, festejarão em nome de Baco e Afrodite.
-E assim será minha tristeza mais forte ainda, pois a ele verei em braços dela.
-Animo menina! Temos tempo ainda! Veja o que faremos: No primeiro dia, quando a lua vir a aparecer sorrateira nesse céu de Zeus, tu subirás a essa colina novamente e aqui estando pedirá com carinho á duas dessas belas estrelas seu brilho, para que a ele possa usar como brinco. Feito isso teu amado á de olhar-te sem falta, pois eu mesma usei desse para casar-me com a serpente com quem hoje vivo!
-Como hei de agradecer-te senhora bondosa?
-Agradecimentos não preciso de ti quero apenas aquela maçã lá no alto, a mais vermelha de todas.
Anthea subiu no galho da macieira e de lá tirou a maçã pedida, a entregando a serpente amiga, e dela despedindo-se com um beijo agradecida.
Não reparou Anthea ao virar-se, tão feliz estava, que a serpente agora era uma mulher tão bela que da lua arrancou suspiros apaixonados e dos grilos um canto enamorado.
Chegou-se o primeiro dia da primavera, e junto a esse o primeiro dia de festa. Ao cair da noite subiu Anthea a colina, e lá sentou-se cantando baixinho uma cantiga que a tanto preparara ela:
-Ó estrelas belas
Que a mim tamanha
esperança trouxeram,
Teu brilho antes por
Mim usado,
Os olhares de meu amado
Fará que a mim retornem!
Ó estrelas cintilantes,
Emprestem-me
Tua ilustre cintilação
Para que assim,
Possa eu amar e
Finalmente ser amada!
Duas estrelas a ela desceram encantadas, e postaram-se cada uma numa orelha. Feito isso desceu Anthea a colina em caminho da festa.
Lá chegando quantos olhares não recebeu! De admiração á inveja! Encaminhou-se á mesa dos noivos para os parabéns a eles dar.
-Felicito os dois com tamanha alegria por uma união tão verdadeira.
Acácia fitou-a com um mero desdém, e Athos, seus olhos sobre ela nem decaíram, tão absorto estava a fitar Acácia sua noiva amada.
Saiu-se dali a pobre Anthea, chorando-se pelo desprezo recebido. Seu coração condoia-se fortemente, e a si desprezava ainda mais por como a Acácia não ser tão bela!
Meteu-se ela pelo jardim da casa, em meio às rosas, o canto da cigarra a fez parar de chorar, sentou-se ali quieta a ouvir canção tão bela.
-Porque tanto choravas menina?
Disse a voz rouca da velha cigarra.
-Chorava eu por não ser bela!
-Que dizes criança, olha para mim, sou velha já, e beleza nunca possui. Tu pelo contrario, a tem em abundancia, e ainda assim te choras, que tamanha ingratidão!
-Peço-lhe desculpas, senhora cigarra, não choro em total por isso, choro por não ser formosa o bastante para daquele a quem amo um único olhar brando não poder conquistar.
-Pois bobo é aquele a quem tu amas por a ti não amar. És tu a formosura em corpo humano como é a rosa em vegetal. Esqueça tal humano menina, atenção aqueles a quem não nos quer não devemos voltar.
-Ora minha senhora, quem sou eu para o coração comandar? Se o amo, o amo por não ter escolha, se por ele choro, choro por a mim fazer feliz e triste ao mesmo tempo! E agora vai ele casar-se com Acácia sua prima, que tamanha formosura a tem que até os olhares de irmão que dele possuía não os possuo mais!
-Olha, quem diria! É teu amado Athos, filho de Libânia?
-Sim, é esse o nome daquele que tanta infelicidade devo!
-Pois tens tempo ainda! Animo menina! Dele ainda um olhar há de ter, nem que seu ultimo seja!
-Mal a não lhe desejo, melhor vivo a amá-lo que morto a lamentá-lo!
-Mal a ele não faremos. Ouça-me menina, se amas tanto a esse humano pecador, ao cair da noite do segundo dia encaminha-te a praia, e lá pede com carinho as ninfas para te emprestarem sua coroa! Com ela tu hás de chamar o olhar daquele a quem tanto amas!
-Como hei de te agradecer, sábia Cigarra?
De ti não quero agradecimentos, vê ali aquela orquídea branca? Me trás ela, assim estaremos quites.
Correu Anthea até o tronco da velha arvore e de lá tirou a bela orquídea entregando-a a cigarra e dessa se despedindo com um beijo agradecido.
Tão feliz estava com a nova esperança que não reparou que era agora a cigarra era mulher, a mesma que da lua arrancara suspiros e dos grilos um canto enamorado.
Veio o segundo dia da primavera, e com ele o segundo dia de festa.
Pôs Anthea os seus brincos do brilho das estrelas e encaminhou-se para o mar, lá chegando sentou-se de frente ás ondas e seus versos começou a cantar:
-Ó ninfas de Netuno,
Quão tamanha formosura
Possuem! Quão doce é o
Teu olhar simplório!
Peço-lhes com carinho,
Admiráveis senhoritas,
Que a mim sua coroa
Emprestem, para que
Assim o olhar daquele
A quem amo a mim mais
Uma vez seja voltado!
Saiu-se das águas uma das filhas de Netuno, a pele azulada e brilhante aos raios da lua chamaram e aos peixes ali presentes uma dança inspiraram.
De sua cabeça a coroa prateada ela tirou, rica como os oceanos de seu pai, e a pôs sobre a cabeça de Anthea que beijou-lhe as faces de tão admirada.
Chegando a festa quantos olhares a ela não eram mandados! Era dali, de longe, a mais bela, chegou-se ela á seu amado, e sua mão estendeu para ser beijada.
-Grande amigo! Não sabes o quão feliz estou em ver-te!
Beijou-lhe Athos a mão mimosa, e com um simples sorriso deixou-a só, Acácia vinha-lhe ao encontro embirrada com alguma coisa.
Agüentou-se por alguns minutos nossa Anthea, até que as lágrimas não mais conseguiu guardar, correu-se até a casa e lá pôs-se a chorar.
Um ronronar mimoso a fez parar e curiosa a vista erguer. Desfilava-se a sua frente uma gata branca como as nuvens em céu de verão.
-Porque chorar jovem menina?
-Ó senhora gata, choro por amar e não ser amada!
-Como se pode isso? Tão bela e formosa és! Cego é aquele que diz tu amar!
-Antes cego fosse! Para assim amar a mim e não a outra! Vê, senhora gata, antes tinha ele olhos para mim, agora só tem olhos a ela, sua prima e noiva, Acácia!
-Ora, não digas que aquele a quem amas é Athos irmão de Leon e Libânio?
-Pois se não é esse aquele o qual meu coração acordou para o amor!
-Animo, criança! Ainda tens tempo! Farás o seguinte se lhe queres um olhar: Ao cair da noite do terceiro dia, debruça-te nessa mesma varanda, aqui defronte ao jardim, e á lua, com carinho, pedes emprestado o vestido que usou ela em seu noivado com Apolo, deus do sol.
-Como posso agradecer a ti, querida senhora?
-De ti não quero agradecimentos, vê aquele ninho pequenino? Traz-me um daqueles ovos e estaremos quites.
Anthea debruçou-se mais ainda na varanda e buscou um dos pequeninos ovos de beija-flor, entregou-o á gata e beijou-lhe o pelo sedoso em agradecimento.
Ao cair do terceiro dia de primavera, veio junto o terceiro dia de festa.
Nossa menina pôs os brincos nas orelhas a coroa na cabeça e dirigiu-se a varanda defronte ao jardim.Debruçando-se a ela cantou seus versos:
-Ó prateada lua, que
Ilumina a noite desalmada,
Ajuda-me lua, querida
Faz com que meu amor
Possa eu conquistar,
Empresta-me teu vestido,
Aquele o qual as núpcias festejou,
Para que assim, possa eu sorrir!
Desceu do céu a lua imperiosa e á Anthea entregou seu vestido, despedindo-se com um aceno de rainha cuidadosa.
Vestiu-se Anthea e encaminhou-se á festa. Ao ali chegar, todos os presentes bestificados ficaram com tamanha beleza aquela da menina de Galén. Era Anthea as estrelas do céu, as ninfas do mar e a luz do luar.
Chegou-se ela a Athos, seu amado, e a seu lado estando disse-lhe baixinho:
-De ti vim me despedir, tanto amor a ti mantive que agora cansasse o coração, queria de ti apenas um ultimo olhar de atenção.
Acácia, que desde que ali era chegada invejara a beleza de Anthea, sussurrou a seu ouvido:
-Boba és, criança, pois se não vê que ele ama a mim, e ainda te enches de esperanças deixe que com elas finde: não te olhará ele, pois á mim ama mais que a si mesmo, seu amor por mim o deixou cego!
Pobre de nossa Anthea, seu sôfrego seio estalou num soluço. Quanto sofria agora a formosa menina! Seu coração morria-se aos poucos, afastou-se dali quase a cair e sentou-se perto de uma roseira branca na grama fresca de orvalho e pôs-se a lamentar seu coração sofrido.
-Porque choras formosa Anthea?
Era Athos que dali aproximara-se em silencio.
-Ó, se almenos tu soubesses...
-Pois conta-me.
Ajoelhou-se ao lado dela.
Anthea lhe contou toda a história, enquanto ele a fitava admirado.
-Vê agora o quanto o amo, quanto sacrifício foi-me feito para de ti arrancar um mero olhar?
Sorriu-se Athos.
-Ora, não vê tu, meu amor, que tanto não era preciso, que meu amor já é infinito, que meu olhar em ti não caia para não sofrer, pois achava eu que amor a mim não tinha? Olha, meu anjo, das estrelas já tens o brilho em teus olhos – Tirou-lhe os brincos das orelhas com carinho e os enviou ás estrelas – das ninfas já tens a singularidade da beleza – tirou-lhe a coroa e a pôs de lado – e da lua, querida Anthea, possui tu o brilho que até a mais densa noite é capaz de clarear.
Anthea chorou-se.
-Porque ainda choras meu amor?
-Choro de felicidade, pois agora posso eu dizer que te amo como nunca antes amei!
Ele lhe cingiu a cintura e a trouxe para junto de si, seus lábios se encontraram num puro e brando beijo de amor.
Ao longe surgiu uma gata branca escondida pela ramagem das arvores, sentada num dos galhos mais densos, transformou-se ela em mulher, a mesma mulher que antes era serpente, que antes era cigarra. Fitou os céus rindo-se, e a um pequenino beija-flor que voava ao seu lado ela dirigiu-se:
-Vê, o que faço, faço-o direito! Se é amor, que seja verdadeiro! E só em amor verdadeiro ama-se e é-se amado!

Nenhum comentário: